Acácia, ipê, fedegoso? Sei apenas que é uma grande mancha dourada, amarela, no verde da floresta. E mais baixo, como sombra colorida, o roxo das quaresmeiras. Embaúbas prateadas. Aqui perto, neste parque, cedros, pinheiros, palmeiras imperiais. Na beira do rio as velhas paineiras ainda estão floridas. Há um barranco de hortênsias; às vezes sentimos na brisa o perfume doce dos lírios do vale. No meio do canteiro há uma touceira de crista-de-galo em flor. E tudo isso, meus filhos, entre o cantarolar alegre dos pássaros livres. Mas a tarde cai, está esfriando. O crescente, já quase pleno, começa a abrir alamedas de luar entre as árvores escuras; bambual alonga a sombra imensa até a água verde da piscina…
A vida, sem discussão alguma, é suave e bela, nesta casa de um amigo. Mas adeus, Retiro; adeus Petrópolis. Descemos. Pela altura da Fábrica Nacional, que era para ser de motores, o calor começa. Vai esquentando, vai esquentando. Depois a estrada tem duas mãos, os caminhões levantam poeira, os motoristas suados começam a se xingar: voltamos ao Rio de Janeiro. Um ônibus fecha o carro de meu amigo na avenida Presidente Vargas. Por que não plantam árvores aqui – pergunta uma senhora inocente? Um lotação bate num carro oficial, para o trânsito; o automóvel é um forno preto bloqueado na pista de cimento. Depois passam bondes atulhados, depois recomeça a vida de todo dia, o calor, o trabalho, a poeira, a aflição.
O número de passageiros dos trens da Central diminuiu de 30 por cento, avisa um matutino; é desagradável morrer enlatado, entre ferros quentes, neste calor, mas 70 por cento dos antigos viajantes (descontados os mortos e feridos) não têm alternativa.
Felizmente, o dr. Vargas ficou lá em cima ouvindo os bem-te-vis e as inocentes cambaxirras. Recebeu as moças que querem entrar para o instituto de Educação, e teve uma frase linda: “não chorem, meninas”. O problema é municipal, mas o dr. Vargas manda – ou, pelo menos, promete. Assim, no alto da serra tão bela, tão fresca, ele só pode governar bem. Bem apertadinho, com seu ministério, dentro de um carro da Rio Douro ou de um elétrico da Central, talvez governasse melhor. Ou pelo menos, se fosse obrigado a atravessar a pé, ao meio-dia, duas vezes, a sua própria avenida... Ou grimpado em um “pau-de-arara”, descendo a Rio-Bahia que o D.N.R. abandonou, devido às verbas cortadas.
Não, não, peço que não me levem a sério. Não quero mal ao nosso presidente. Apenas estou meio irritado porque tive de voltar para o Rio segunda-feira cedo. Ir a Petrópolis foi um erro. Agora estou respirando o doce ar dos escapamentos dos ônibus com um humor piorado. Perto do Cantagalo, sob o sol tremendo, vejo uma negra com uma lata d’água na cabeça. Ela também vai subir – não a Petrópolis, é claro. Lá vai Maria... Pela mão leva a criança – uma negrinha de cinco anos, de joelhinhos sujos. Mais além uma velha grita algum desaforo para a mulata magra, que se ri. E uma outra negrinha, só, sentada no chão, o nariz sujo, está chorando. “Não chore, menina”.