Deu-me na telha, ontem, ir a um teatro de revista – escolhi aquele mesmo, perto da praça Tiradentes, onde fui, rapazinho, levado pelo meu bom tio português. Lembro-me de Araci Cortes cantando o Jura, e de um quadro que mostrava um moço de uniforme em mulambos, barbudo e ensanguentado, pedindo à Pátria (uma senhora de formas generosas, envolvida na bandeira nacional) com palavras de desespero e dor, Anistia. Meu tio chorou, disse um palavrão, e exprimiu do seguinte modo sua opinião sobre a censura e o teatro de revista:
— “Eu não me meto em política, e não entendo disso. Mas ou esses rapazes têm razão e o governo deve lhes dar anistia, ou são uns aldrabões, e o governo deve proibir essa coisa no teatro. O que eu quero é pagar a entrada para me divertir e ver essa desgraça”.
A revista de hoje dispensa o patético, e sua sátira política é leve. Na que eu vi ontem, Colé estava realmente engraçado; não creio que haja quem o supere no gênero pilantra. Falemos ainda de Herminia Gonçalves, que devia cantar mais fado, fado corrido, em que é muito grande, e talvez a maior. E não sejamos hipócritas ao ponto de omitir uma referência à anatomia inteiramente admirável da jovem Nélia Paula.
Mas que tédio imenso nos pulos e cantorias dessas eternas coristas, que parecem nos querer convencer pelo número e pelas cores, pela vã agitação e triste descompasso! Que luxo vulgar, que pobreza de espírito, que triste sequência de inúteis armadilhas de efeito, ao longo de uma revista com o único fim aparente de encher o tempo, dolorosamente ponteado de bocejos, até atingir a meia-noite e meia.