Periódico
Correio da Manhã

Publicada em: Folha da Tarde, de 28/04/1952; Manchete, de 21/11/1953; Diário da Noite (Recife), de 8/02/1960,  com o título "O coração"; Correio da Manhã, de 10/04/1952; O Globo, de 3/02/1960,  com o título "O coração do poeta"; Diário de Notícias, de 30/03/1966; Revista Nacional, de 16/03/1980, 30/05/1981 e 6/12/1987, com o título "O poeta e os olhos da moça"; O Fluminense, de set/ 1978 e 12/04/1981;  Ele Ela, de abril de 1980.

O poeta precisa fazer um exame de coração. O médico o recebe com um ar grave. Pergunta nome, idade, filiação. E o pai, e a mãe, de que morreram? E os irmãos? O médico investiga a família do poeta, mas este não conta tudo. Não diz nada de suas irmãs remotas, que vivem no azul e se chamam estrelas; nem das humildes flores do campo. De suas doenças não diz as que mais o feriram no fundo da alma, de seus vícios não conta o vício de amar.

— Tire o paletó e a camisa.

O médico aplica um aparelho sobre o peito do poeta. Aplica várias vezes, mais acima, mais abaixo, mais à direita, mais à esquerda. Apalpa o corpo imóvel. Manda que ele respire. Inspire, expire. O poeta inspira, o poeta expira. Seu corpo é transportado para uma câmara escura em que uma enfermeira lhe ata os pulsos, o peito, a perna, com aparelhos ligados a fios misteriosos. O poeta tem a certeza de que se deitou na cama elétrica e vai ser executado, mas a enfermeira fala em electrocardiograma e pretende estar fotografando a marcha do sangue do poeta. O médico examina as chapas, o médico toma o pulso do poeta e a pressão do poeta, e mais uma vez, como os antigos auscultavam as pitonisas, o médico ausculta o poeta.

O olhar grave, ele o encara; depois, lentamente, escreve coisas em um papel e lhe entrega:

— O senhor tem um coração de menino.

— Obrigado, doutor. As mulheres sempre me disseram isso.

Falei um nome de mulher. O poeta me confessou que há muitos, muitos anos, tem vontade de fazer um poema sobre uma história que ele teve com essa mulher a que chamaremos Maria. Espanto-me: não sabia que o poeta tinha tido alguma história com Maria. Ele me conta, na mesa do café:

— O poema ainda não saiu. Isso aconteceu há uns dez anos e sempre pensei em escrever um poema, mas ele ainda não veio. Virá talvez um dia, inteiro. O caso foi assim. Eu estava no Praia Bar, sozinho, com uma tristeza danada, por causa de outra mulher. Estava desesperado, mas principalmente triste, com uma tristeza sem fundo nem remédio. Em certo momento eu paguei a conta e saí. Quando vou pisando na calçada, me encontro com Maria, que vem de braço dado com o noivo. Meus olhos entraram diretamente nos seus. Meus olhos, com toda a minha tristeza, toda a minha alma desgraçada, entraram de repente nos seus, mergulharam completamente neles. Ela se deteve um instante — eu só via aqueles olhos verdes — e me recebeu como se fosse uma piscina. Tenho a certeza de que ela recebeu a minha alma ferida, de homem desprezado, dentro da sua alma distraída e feliz de moça que passeia com o noivo. Cumprimentei os dois vagamente, segui pela rua tonto, mas apaziguado.

Contei essa história a Maria. Ela beliscou o beiço, tentando se lembrar: — No Praia Bar? Quando foi? Não, não me lembro…

E ficou me olhando admirada, com seus olhos de piscina.

rubem-braga
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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