Há algum tempo passou-me pelas mãos um livro que só se poderia chamar de livro porque tinha capa por fora e folhas impressas por dentro. No mais não era livro, não era nada — apenas um amontoado laborioso de banalidades e sandices, tão ruim no todo como em parte que para ele dever-se-ia inventar um superlativo de mau mais forte do que péssimo. E no momento de atirar fora o volume, se a gente dedicava um pensamento ao autor, concluiria logicamente que só se poderia tratar de um cretino ou de um impostor.

Um ano ou mais após a recepção do livro, veio alguém me apresentar o seu autor. Custou-me ligar o nome à pessoa; e depois de o identificar, custava-me acreditar que aquele moço simpático e modesto, de cara pálida, gestos discretos, conversa igual à de todo o mundo, houvesse cometido tal obra. Pois logo se via que era um homem honesto, como se via também que não era um cretino. Conversou-se de literatura e, naturalmente, ele mostrou sua devoção pelos mestres canonizados; de certo modo, porém, escolhia-os com gosto pessoal e explicava porque os escolhera. Compreendi, enfim: coitado, era mais um irmão da fraternidade dos idealistas desconhecidos — os errados, os medíocres, os que jamais realizam nada, mas nunca têm consciência disso, porque na alma lhes arde a flama da arte com a sua luz mais pura. Embora com resultados tão pífios, põem eles no seu trabalho muito mais de sonho, de gratuidade, de ardorosa devoção à arte pela arte, de amor à glória, de prazer criador, do que muito autor de obras-primas.

Leve-se em conta, inicialmente, que tanto trabalho teve Poe em escrever O corvo quanto o teve o obscuro amanuense em escrever o seu poema em versos brancos, recusado pela seção literária de Fon-Fon. Se o primeiro abala e comove o coração dos homens, enquanto o outro só faz nascer irrisão e tédio, forçoso é reconhecer que ambos colimaram o mesmo fim. Pois ambos gastaram o mesmo esforço na concepção, a mesma angústia pela forma perfeita, até o mesmo labor material ao escrever.

Já pensastes, amigos, na quantidade comovente de sonho, de aspiração, de flama autêntica que é atirada à cesta nas redações de jornais? Não vale contar a qualidade da obra: o que conta é o impulso que a gerou.

Vede aquele pintor que toma do cavalete, do pincel, da paleta e sai pelas montanhas e beiras de praia em busca de “motivos”. Poderá ele dizer de si, e com verdade: “Que têm os outros, os vencedores, que eu não tenho”? Tem o material completo de artista, até a blusa branca, até a boina meridional. E sente em si o borbulhar da criação, o amor da sua arte, na qual acredita com fé incorruptível. Estuda apaixonadamente, coleciona biografias de mestres, como um devoto coleciona vidas de santos. Põe nos filhos os nomes desses mestres e pela casa lhe andam engatinhando, sujinhos e inspiradores, Murilos, Rafaéis e Ticianos. Concorre infalivelmente ao Salão, toma partido acirrado pela facção a que se filiou, e por ela daria até a vida. Faz tudo que deve fazer um pintor pobre, só não faz pintar. Não que não pinte; apenas, pintando, não produz pinturas. A sua única sorte, a única coisa que o sustenta no beiral da tragédia, é que nem o estudo, nem o tempo, nem a contemplação das obras-primas, o livram da sua cegueira especial, da sua incapacidade de distinguir entre a verdadeira arte alheia e a sua própria anti-arte.

E como o do pintor é o caso da moça que sofre de irresistível vocação para o teatro, e abandona lar e família, às vezes marido e filhos, para seguir o seu destino artístico. Enquanto o público não a apupa, jamais se apercebe da dolorosa divergência que há entre as ambições da sua alma e a sua capacidade de realização. Acontece até que, mesmo depois de vaiada pela plateia ou zurzida pelos críticos, ela continua para diante, não se culpando a si mas aos outros, ao autor da peça, ao ensaiador, ao próprio público que não a compreende. Com mais fúria se imola então, sacrificando mais ainda ao seu “ideal”, se ainda tem mais para lhe sacrificar.

A fraternidade inclui ainda poetas, músicos, inventores, artistas líricos — milhares e milhões.

O que os anima, nas horas de depressão, de desconfiança contra si próprios, provocadas por um revés maior, é o mal-aventurado exemplo dos consagrados que venceram através de um mar de dificuldades, e sangraram os pés por todos os caminhos até pisarem as calçadas da glória. Ou, exemplo ainda pior, o dos que morreram desconhecidos, e só depois de mortos foram ilustres. A tal “justiça de Deus na voz da História” para a qual apelava o Imperador destronado, que era também “poeta” da irmandade. Aqueles que contam com o renome em vida, ainda podem sofrer uma desilusão oportuna. Mas os que esperam pelos louros da posteridade, esses na realidade estão perdidos sem remissão.

Frequentemente recebo cartas de jovens que me pedem uma palavra de apoio, de animação, de solidariedade. E exigem, principalmente, uma opinião sincera sobre a qualidade dos seus trabalhos. Claro que os referidos trabalhos vêm inclusos nas cartas; mas em geral — dói-me dizê-lo — são péssimas essas amostras de principiantes. De cem que escrevam, haverá talvez quatro ou cinco regulares e um, ou menos que um, bom. No entanto, na maioria todos são sinceros, todos se dizem incompreendidos, todos alegam que lutam contra o meio adverso, o que lhes prova o idealismo e a devoção artística. Pode haver aventureiros entre eles, ambiciosos de uma glória fácil. Mas são poucos, e rapidamente identificáveis pela leviandade e pelo arrivismo. E que hei de dizer, que hei de responder a esses moços? Palavras duras de decepção, a brutal verdade? Quem sabe entretanto se tenho direito de lhes falar assim, quem sabe não sou eu própria vítima de ilusão idêntica? E se por milagre não o fosse, quem me autorizaria a derrubar o palácio de mentira que eles construíram para se meterem dentro, porque assumiria eu tal responsabilidade? São felizes enquanto se iludem. E que lhes daria eu em troca? Por isso não lhes respondo. Melhor que me culpem de presunção, de descortesia, de malcriação.

Aliás, pensando bem, seria inútil dizer o que quer que fosse; não me acreditariam. Como me declarou um, recentemente, em carta de dez páginas: “Nós somos os possessos do ideal…”

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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