Nestas horas de trepidação democrática, quando todos se inquietam, muitos clamam, uns saem à rua para as disputas eleitorais, outros alertam o povo; quando o país inteiro se subdivide e se agita, decidindo como e por quem deve ser governado; descobre-se aqui e além uma figura rara — mas não tão rara, o precioso, o arminho de branco pelo, o indiferente, o superior, que a si mesmo se intitula de “apolítico”.
Em regra é um senhor muito distinto. A chave de sua personalidade está na convicção que o norteia: ele não deve nada ao mundo, o mundo é que lhe é devedor, por o tolerar. Diz que não pede nada a ninguém. Tem o seu emprego, ou a sua renda, garantidos. Não indaga de onde lhe vem a comida que come, o chão que pisa, a telha que o cobre, a roupa que o veste, o supérfluo que não dispensa. Será trabalho das suas mãos, aquelas inúteis mãos de homem “fino”, que nunca plantaram uma semente, nunca afeiçoaram um pedaço de pau ou de pedra, nunca produziram nada de útil ou de belo, — sequer uma linha de poema? Recebe tudo isso grátis, por direito de nascimento.
É apolítico. Gosta de afirmar que paira “au dessus de la mêlée”. As sórdidas lutas entre os homens pelo poder, pelo prestígio, este oferecer-se para servir, que é toda a vida dos políticos, só lhe causa tédio. Ou pior, náusea. Se pudesse, os liquidaria todos. Não lhe ocorre perguntar como viveríamos sem eles; pois, a seu ver, esta civilização que vamos construindo, precária e teimosa, e todavia admirável, aparentemente brotou do chão, junto com o capim. As cidades e as fronteiras, os 400 anos de São Paulo, os 300 anos de Pernambuco sem flamengos, o milagre da nacionalidade inteiriça nesse quase continente que ocupamos — tudo isso, para ele, é obra que não careceu de arquitetos. Brotou, feito cogumelos.
Não sabe nem lhe interessa saber quem, bem ou mal, governa o país, quem faz o orçamento, quem manda no exército. Não cuida em como opera a polícia, como se asfaltam as ruas, como se abrem estradas, como funcionam hospitais. A ele só interessa gozar os frutos do trabalho desconhecido, e ainda se reserva o direito de fazer restrições, de achar ruim, de traçar comparações irônicas: fosse na Inglaterra, ou nos Estados Unidos... Também que se pode esperar de um país de mulatos. (Sim, porque em 90 por cento dos casos ele é racista...)
Também é pessimista. Quando, por exemplo, alguém lhe fala em livros e edições nacionais, encolhe os ombros. Para que livros, num país em que há 80% de analfabetos? Contudo, jamais mexeu um dedo para ensinar a ler a um analfabeto. Nem lhe ocorreu saber como vivem e trabalham as centenas de milhares de mulheres professoras que se afundam pelo interior, lutando contra esses fatais 80%, reduzindo-os.
O problema da infância abandonada e o da mortalidade infantil, o chocam muito. Não gosta nem de ler estatísticas. Tem uma sensibilidade refinada, não é? Pensar nas criancinhas que se acabam aos milhares no sertão e no litoral, sem assistência médica, sem nem ao menos comida... É melhor desviar o pensamento, para não se impressionar. Quanto à infância abandonada, faz o que pode: de vez em quando dá um níquel ao moleque caneludo que lhe pede tostão à porta do cinema ou do restaurante. Embora às vezes se irrite com a falta de policiamento.
Eleição. Bem, eleição para ele “é o fim”. Como se interessaria por eleições se tem nojo de políticos, se democracia e demagogia para ele são palavras sinônimas? A dura competição entre candidatos, a perplexidade e os enganos do eleitor de poucas luzes, as esperanças, as promessas, os discursos; as lentas apurações, as urnas anuladas — que nojo, Senhor, tudo isso é o pântano, cheio de vapores mefíticos, por onde ele só passa obrigado, e de lenço ao nariz...
E recusando-se assim enfaticamente a tomar parte nas tarefas políticas do povo, o apolítico pensa que é um homem livre, que o seu abstencionismo o faz superior à sórdida confusão geral. Não vê que é um escravo, mais cativo que ninguém. Não ajuda, não interfere, é uma espécie de teúdo e manteúdo da coletividade. Vive e morre sem jamais influir no mínimo, já não digo no destino dos outros, mas no seu próprio destino: o imposto que paga, as leis a que obedece, o governo a que se submete, a moeda que usa, — tudo foi feito à sua revelia.
Aquelas mãos sem uso, podem ser brancas e manicuradas, na verdade são mãos de serralho. O sorriso irônico e superior, só traduz egoísmo e estupidez. A alma, que ele supõe tão altiva, é alma de tutelado perpétuo, de incapaz legal, que nunca saiu da minoridade. E o serviço que presta ao seu tempo, ao seu povo e à sua terra, — Deus que me perdoe a palavra, que é feia e dura, mas é só a que me ocorre: é apenas serviço e presença de eunuco.