Fonte: 1º Caderno, coluna Rodízio, Jornal do Brasil,  de 20/12/1958.

Aqui estão eles, os dias, sempre passando. Descubro que nunca mais terei 20 anos e me preparo para fazer aquilo que andei prometendo. Quando se é jovem, todas as promessas são válidas. Se você jura que vai entrar para um convento ou escalar o Kilimanjaro, as pessoas ficam esperando. Mas se o tempo passa e você não faz nada, elas cobram: “Como é? Você não pretendia tornar-se um capuchinho?”

Quando cheguei ao Rio, aos 18 anos, prometi a mim mesmo e ao mundo que me tornaria um romancista. Dois anos antes eu era um menino e escrevi um livrinho horrível. Todas as tardes me sentava e escrevia uma página. Frequentava lindas e invisíveis mulheres que todas estavam em amores com tristonhos rapazes com os quais me identificava. Aquele mundo romântico ia crescendo e meu coração se satisfazia.

Mais tarde, perdido o livro não sei em que porão, perdi também a confiança em meus dons. Procurei-me em toda parte, pálido como convém aos aflitos. Não me encontrei. E os anos foram passando, o coração violento se aquietou. E eis que no umbral de um novo ano me encontro com as mãos vazias. Nada de crise: simplesmente as mãos vazias. Olho essas mãos acostumadas a lidar com palavras e lhes digo: — Minhas mãos, vocês devem elaborar um romance até junho do ano que vem. Não me decepcionem. E agora — ao trabalho!

Foi há uma semana, e há uma semana fujo da máquina de escrever. Há uma semana só penso naquilo que não estou fazendo. No trabalho, na rua, no sono, reúno minhas forças e espero o momento próprio. Não há poder que me impeça de fazer o que deve ser feito: há, isto sim, um medo delicioso, uma vertigem que me embriaga e me contenta. Para cultivá-la fiz esta crônica que não creio tenha qualquer interesse.

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.