Fonte: 1º Caderno, coluna Rodízio, Jornal do Brasil, de 31/12/1958.

Um navio ancorou na praça Mauá, em velha tarde de 31 de dezembro, e por esse motivo não fiquei só durante a noite mais triste do ano. Havia entre os passageiros um casal de ingleses que o acaso, e a necessidade de ver gente e estar perto de gente (ainda que estranha) à meia-noite, tangeria até o terraço do Alcazar, em Copacabana.

Uma só pessoa estava sozinha numa das mesas do bar: um гараz de óculos, tendo à sua frente um Cuba Libre, que procurava pensar em sua terra natal e na maneira como àquela hora os seus amigos distantes estariam iniciando a comemoração do fim de um ano, coisa sempre triste, e começo de outro, sempre uma coisa triunfante. O rapaz bebia Cuba Libre e lembrava com todas as suas forças que queria alhear-se do bar sob cujas luzes havia umas cem pessoas reunidas em grupos alegres.

O casal de ingleses entrou no bar e, não encontrando mesa vaga, o homem empurrou docemente sua companheira para a calçada. Nesse instante o rapazinho teve um gesto quase involuntário, erguendo-se acenando para eles. O casal entrou, sentou-se, o homem pediu dois chopes duplos e teve início o mais cordial, o mais confuso, o mais comovente diálogo que se possa imaginar. O rapaz não sabia uma palavra de inglês, mas lhes disse com gestos o que significava o movimento fantasmagórico das tochas e das flores que os filhos de Iemanjá empunhavam na praia. E lhes disse que estava só. O inglês era um homem rude, com o rosto enrugado e curtido pelo sol, e sujava o bigode de espuma ao beber o chope. A inglesa, magra, grisalha, e de doces olhos azuis, lançava para o rapaz olhares francamente maternais.

Quando os joguetes se ergueram em toda a orla de Copacabana, o provinciano brasileiro apertou a rude mão do inglês e beijou — beijou! — beijou na boca a inesquecível mamãe que, mais tarde, com lágrimas, voltaria ao navio e à Inglaterra.

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.