Hoje, aniversário de O Cruzeiro, esta casa, é claro, está em festa. Jornais são como chineses e não como moças bonitas: não se envergonham da idade, antes se sentem orgulhosos dos cabelos brancos e das rugas, e, quanto mais velhos, mais vaidade tiram disso. E pois, o coquetismo não está em negar a idade, mas em confessá-la abertamente: 25 anos! Se possível, a gente até aumentava, rendendo bem as contas, esticando bem as fases…

O fato é que embora não alcancemos a resplandecente velhice dos vovós como o Diário de Pernambuco ou o Jornal do Comércio do Rio, sentimo-nos como um dos decanos do jornalismo no Brasil, ou, pelo menos, uma das decanas entre as revistas. (Agora, uma dúvida: pode-se dizer um dos decanos ⏤ ou a qualidade de decano supõe um só?) De qualquer jeito, a ideia já foi expressa, que é o mais importante: somos dos mais velhos, somos quase veneráveis.

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Agora que, com o quarto centenário de São Paulo, voltaram à moda os bandeirantes, é bom que se saiba: bandeirantes absolutos somos nós. Nem o velho Fernão Dias cortou mais sertão, transpôs tanto rio, enfrentou tanta serra, furou tanto este Brasil desconhecido quanto as moças bonitas das capas coloridas de O Cruzeiro.

Posso depor como testemunha de vista, porque conheço bastante a nossa terra. Tenho percorrido de trem, de navio, de automóvel e de avião muita província. quase todas as províncias do Brasil! Mas sempre, na minha frente, encontrava já antigo o rastro de O Cruzeiro. Senhores austeros com coleções encadernadas. Moças com álbuns de recortes das suas seções prediletas, senhoras casadas, colecionadoras do “Lar Doce Lar” ou da “Etiqueta”. Cheguei a encontrar até mesmo mandões de aldeia, aborrecidos porque a audácia de algum repórter de O Cruzeiro andou lhe descobrindo os malfeitos num lugarejo tão escondido que ele lá se imaginava a coberto até mesmo do olho da Providência!....

E números esparsos, números soltos, nos povoados mais escassos, nas casas mais humildes e isoladas. O Amigo da Onça, por exemplo, tem fãs até em locais onde onça de verdade deixa de ser um símbolo, para ser personagem da realidade cotidiana. Onça e outros bichos…

Aliás não carecia o testemunho pessoal meu nem de ninguém para constatar a nossa penetração geográfica: basta examinar a correspondência dos redatores e colaboradores da revista. Recebemos cartas de toda a parte, mas de toda a parte mesmo, até de lugares onde não há correio. Missionários nas zonas pouco habitadas de Mato Grosso e da Amazônia, sertanistas da “Proteção aos Índios” ou da “Brasil Central”, mandam-nos cartas com data de meses atrás; cartas que andaram léguas imensas no bolso de um “próprio” e que ainda trazem consigo um pouco de cheiro de índio e de mata virgem. Soldados dos postos longínquos da fronteira, desterrados de Fernando de Noronha, caçadores das margens do Araguaia, seringueiros do Acre, toda essa gente, uma vez por outra nos escreve. Pessoas para quem o escrever uma carta é atividade incomum, ousada e fascinante, e que nos mandam ora bilhetes, ora longas missivas, pedindo informações, louvando, contestando, solicitando atenção, auxílios, contando casos…

E do estrangeiro? Argentina, Uruguai, Paraguai e demais repúblicas sul-americanas, isso para nós é “café pequeno”. Estados Unidos, idem, idem. Portugal também, e não admira, é a nossa gente; mas as províncias portuguesas do ultramar já ficam bem longe, e escrevem com admirável frequência. E da Alemanha, da Suíça, da Inglaterra; neste momento tenho aqui na mesa, recém-aberta, uma carta vinda da Escócia. O correspondente, um nativo de lá cita certa crônica em que se falava a respeito de saudades; zanga-se porque a cronista se gabava de não ter saudade de nada, e geme, amargamente saudoso do tempo em que morou em Pernambuco.

Até de Paris, sim, de Paris, para quem o resto do mundo é là-bas, de vez em quando nos pinga uma cartinha. Há muito francês que, por qualquer motivo, entende o português; e no escritório da Panair, no Plaza-Athenée, pode faltar tudo na salinha de visitas presidida por Mademoiselle Arlette, menos cafézinho carioca e o último número de O Cruzeiro.

Em resumo, todo o estrangeiro que morou no Brasil e aprendeu a língua, ou, mesmo sem ter vindo cá, procura contato conosco, encontra na leitura da nossa revista uma maneira feliz de matar as saudades ou de conhecer o fascinante desconhecido que para ele somos nós.

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Diz que elogio em boca própria é vitupério. Será. Mas não estamos propriamente a elogiar-nos, estamos a citar fatos. Ou, como dizia uma garota paulista naqueles anos exaltados da revolução de 32: era ela excessivamente orgulhosa da sua província e alguém a acusou de convencida. A pequena retrucou na batata: ⏤ “Paulista não é convencido. Paulista é cônscio.” Assim somos nós aqui da casa: cônscios. E temos de que, não temos?

Senão, façamos umas contas: o Brasil tem 50 milhões de habitantes. Desses 50 milhões, 80% são analfabetos; restam portanto 10 milhões que sabem ler. O Cruzeiro está com a tiragem de 550.000 exemplares semanais. Fazendo-se uma estimativa de 5 leitores por exemplar (o que é uma base das mais modestas, poder-se-iam dar 10 leitores para cada revista) mas a 5 por exemplar, temos 2 milhões e 750 mil leitores. De onde se conclui que, de cada quatro brasileiros que sabem ler, um, pelo menos, é leitor de O Cruzeiro. Sem contar os penetras, os leitores de barbeiro, de dentista, de consultório médico e outros lugares onde centenas de pessoas folheiam a mesma revista e não entraram na conta...

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E agora, que algumas verdades foram explicadas, vamos ao bolo. Feliz aniversário para todos nós.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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