O rio passava por aquele lugar desde o começo do mundo, mas até o dia de hoje ninguém lhe tinha aproveitado as águas que corriam à toa e se perdiam no mar. Sendo que durante as cheias do inverno fazia ele mais dano do que bem, erguido de barreira a barreira, devorando as barrancas, carregando boi afogado, carregando umarizeiras gigantescas que reviravam a copa e as raízes na água revolta, carregando às vezes rebanhos inteiros de ovelhas, unidas até na morte, o corpo dos cordeirinhos boiando à deriva junto ao corpo das mães. Depois vinha o mês de junho e o fim das águas; o rio descia para um palmo de corrente, depois meio palmo, depois quatro dedos, até a areia alva secar de todo, ficando um poço aqui e além. Setembro, novembro, nem mais poço tinha: quem quisesse achar água tinha de cavar cacimba no leito seco, com dois, três metros de fundo. Isso todos os anos, sem perdão. A terra marginal, recebendo o lodo das enchentes é tão rica que tudo o que se conta das terras do Nilo pode ser repetido a respeito dali. Mas por melhor que seja o chão, não havendo água, que adianta? E por isso as coroas férteis do rio permaneciam quase intactas, ou mal aproveitadas com um roçado de milho, uma partida de algodão, alguns pés de jerimuns.

Mas o velho fazendeiro lá tinha o seu sonho de aproveitar aquela riqueza encoberta, fazer um açude, armazenar a água perdida em cada inverno e com ela irrigar as coroas fecundas. Nem sequer precisava aproveitar o curso do grande rio, empresa custosa demais para as forças de um homem e seus filhos. Bastava pegar um afluente bom, um riacho poderoso, encaminhá-lo para uma depressão de caatinga entre dois altos e deixar que o prato d’água se espalhasse mais além, na várzea limpa. O governo ajuda. Fique sabendo quem tiver vontade de fazer açude que o governo aceita fazer açude de meia com o fazendeiros, paga as despesas pela metade, — mas fiscaliza e quer ver a obra pronta dentro do tempo marcado, senão não entrega o prêmio.

E assim, um belo dia, no vão que ficava entre os dois altos pedregosos foi-se erguendo a parede destinada a conter as águas da represa. Primeiro se cavou a fundação, e depois se foi enchendo aquilo com terra peneirada que os jumentinhos carregam nas caçambas de fundo falso. Polegada a polegada, tão devagar que mais parece obra na natureza sem pressa, pois tem a eternidade à sua frente, e não obra a se cumprir na curta vida dum homem. Devagar como as camadas sucessivas dum recife de coral, vão se acumulando as camadas de terra que não deve ter dentro nem uma pedrinha, nem um garrancho, nem corpo estranho de espécie nenhuma, para mais tarde não se abrir por ali na revência.

E cada camada de terra é aguada e socada a malho, e depois vem a camada seguinte que também se molha e também se seca — e parece ideia de doido a gente pensar nos metros e metros de altura que vai ter o paredão, e nas centenas de metros de comprimento e nas dezenas de metros de largura que terá a base, — e tudo feito com pá e enxada, sem máquinas, com o suor e a fadiga da carne viva, debaixo do sol que não poupa ninguém, os homens magros cavando o chão, outros peneirando a terra, os jumentinhos diligentes escalando a parede nova com as suas cargas, e a outra turma de homens alisando as camadas iguais de terra, e erguendo os malhos pesados feitos de madeira de lei, que à volta batem no aterro com um som cavo.

Tudo é tão grande e tão vagaroso que deixa apertado o coração da gente. Mas passa-se um inverno e um verão e quando no ano seguinte se volta lá, o milagre começou. A parede ainda não está pronta mas já se ergue a vários metros de altura. O porão está cheio da água funda e clara que depois se estira mais rasa pela caatinga e pela várzea, cobrindo o pasto e afogando árvores. Pelo sangradouro provisório corre um riacho transparente pelo qual tentam subir os piaus e as curimatãs, minúsculos.

Ainda faltam dois metros de parede, serviço para um ano, talvez. Porém no baixio de cana as valetas já correm cheias, e o engenho que está sendo montado terá o que moer no próximo verão. A vazante, com as águas novas, recuará para bem longe: contudo, já neste verão doido de 48, deu batata e melancia, jerimum e até milho. Ao lado da cana prepara-se o roçado de arroz. Na antiga terra seca da beira do rio as coroas fecundas estão todas retalhadas de cercas: onde só dava jurema espinhenta, catingueira e marmeleiro, plantam-se agora mudas de coqueiro e árvores de pomar.

*

O fazendeiro não viu o seu sonho cumprido. Mas no lugar onde ele dorme, pertinho do açude, há de escutar as pisadas da gente que passa em procura dos roçados; há de ouvir o trepidar do engenho, o mugir do gado gordo, a cantiga dos passarinhos felizes: há de sentir a frescura e o cheiro bom da água, dando vida à terra que ele amava e que por toda parte guarda a marca das suas mãos, como uma bênção.

rachel-de-queiroz
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.
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