Crônicas semanais, publicadas em revista e escritas com 15 dias de antecedência, não proporcionam ao comentarista a oportunidade de lidar com o fato em foco, com aquilo que representa o próprio nervo do jornalismo, que é o acontecimento do dia. Escrevendo para publicação duas semanas mais tarde, o cronista hebdomadário tem, por isso mesmo, que escolher os seus assuntos entre os que não dependem de uma atualidade imediata, os acontecimentos que não se arrisquem a estar completamente superados quando sair impresso o seu comentário.
Eis por que, nesta “Última Página”, ainda não se aludira ao acontecimento trágico que vem abalando a vida do Rio de Janeiro e a vida do Brasil, desde a madrugada de seis de agosto último: a emboscada contra o jornalista Carlos Lacerda que resultou na morte do Major Rubens Florentino Vaz, e em ferimentos a bala no próprio jornalista e no guarda municipal Sálvio Romeiro.
E sobre esse crime, nesta hora atrasada, que mais resta a dizer? Apenas constatar que poucos homens, quando caem mortos, provocam um eco tão grande de cólera, dor, indignação, vergonha, qual foi o eco da morte do jovem aviador assassinado. Dizer que o Brasil inteiro pôs luto, que o Brasil inteiro até este momento ainda se sente no abalo e na angústia do primeiro dia do atentado, esperando que justiça seja feita e remédios eficazes se apliquem aos males provocados pelo hediondo sucesso.
Esperemos que à hora em que este número de O Cruzeiro estiver nas ruas (e não será cedo!) o atentado da rua Toneleros já não seja um mistério para ninguém e, no lugar que lhes é devido, — a cadeia — estejam os seus responsáveis, materiais e intelectuais.
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Precisamos não esquecer, contudo, que este crime não foi simplesmente “mais um crime”, igual aos outros. Este crime foi, acima de tudo, um apavorante sintoma do estado de degradação a que desceu este pobre país.
Sim, bem sei que é uso no Brasil matarem-se jornalistas em represália a campanhas de imprensa. Criei-me numa terra em que o jornalismo de oposição era a mais arriscada de todas as profissões. Vi morto a tiros na sua banca de trabalho, o jornalista Antônio Drummond, fundador da Gazeta de Notícias. Iniciei-me no jornalismo ao lado de Júlio Ibiapina e Demócrito Rocha, homens que viviam permanentemente com o pé na cova, em razão da violência das suas críticas aos poderosos do tempo. Mas havia, há, uma diferença básica entre esses tradicionais atentados contra jornalista e o sórdido tiroteio da madrugada de seis de agosto: nas nossas províncias a luta era de homem para homem e de homem para homem eram os choques armados. O agressor agia pessoalmente, vindicando os seus brios ofendidos, pois o traço principal dessa espécie de vendetta é que ela deve ser pública e intransferível, já que pública e intransferível foi a ofensa. O criminoso era, portanto, o primeiro a proclamar a sua desafronta, e a aceitar o preço que a sociedade lhe cobrava por ela.
Neste caso de agora, não: não houve um desagravo, houve simplesmente uma tocaia. Não se trata de um crime de paixão e cólera — foi um frio assassinato, um “trabalho” de “gângsteres”. Foi uma “encomenda” tratada e executada por pistoleiros profissionais. Não apareceu um homem ofendido e irado, a defender o seu nome, injusta ou justamente atacado; o que houve foi um mandante misterioso, poderoso, que se supunha indene a castigos; e talvez na hora em que me lerem já vocês e eu saibamos de ciência certa o nome desse mandante, já que o inquérito parece que afinal chega a bom termo.
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Não quero antecipar julgamentos. Confio na justiça de meu país, confio na paixão pela verdade que anima a comissão de inquérito constituída por elementos das Forças Armadas, já que a Polícia, como seria de esperar, se mostrou no caso desidiosa e omissa. Confio igualmente na severidade do julgamento popular. Há contudo um dito nacional muito conhecido: “No Brasil ninguém se inutiliza”. Desta vez, se deus quiser, o povo terá melhor memória. As eleições estão próximas, feliz, felicissimamente. De modo que, seja qual for a solução política que os dirigentes do país deem a este terrível caso, o povo, nas urnas, há de confirmar a sentença do Judiciário. Que não se repita o desastroso equívoco das eleições de 1950, equívoco provocado por 15 anos de propaganda sistemática, insidiosa, maciça. Esperemos que o povo não mais cubra com as imunidades de um seu mandato os prováveis réus de agora, e seus inimigos certos. As eleições de 50, todos agora o entendem e o lamentam, praticamente anularam a obra saneadora do 29 de outubro de 45. Mas os motivos do tristíssimo fenômeno já não se repetem nestas eleições de 54. O povo já não anda mais embriagado, hipnotizado, iludido com as flautas mágicas da propaganda dirigida. O povo tem visto com os seus olhos, palpado na sua carne, sentido com o seu olfato o cheiro corruto, compreendido não só com a inteligência mas com os seus cinco sentidos, o que foi o seu trágico engano de 1950. E tem pago duramente por esse engano. Mas o povo há de consertar o seu erro. O povo tem muita coisa em comum com deus nosso senhor; o adagiário que se aplica a um, pode muito bem se aplicar ao outro: “o povo tarda mas não falta”, “quando ele custa já vem a caminho”, “ele escreve direito por linhas tortas”.
Neste momento ninguém sabe ainda se as circunstâncias políticas, se a prudência dos homens de responsabilidade, se o natural terror de uma solução de força, levarão a crise atual às suas últimas consequências. Mas haja o que houver agora — ou haja o que não houver — aí estão as eleições de outubro ao nosso alcance, com a grande, a extraordinária, a pacífica, a soberana arma para reparar todos os erros e aproveitar a lição de todas as desgraças.