Fonte: Caderno B, coluna O Homem e a Fábula,  Jornal do Brasil,  de 14/11/1959.

Não se pode falar no Brasil sem pensar no futuro. Nosso futuro particular está traçado; é bem possível que este país se transforme no país mais irritante de que se tem notícia. Haverá riqueza, certamente, mas é muito provável que sejamos invadidos por essas máquinas que produzem maciçamente pipocas, roupas brancas de nylon, copinhos de papel para beber água, filmes coloridos com fim feliz, refrigerantes, calças de vaqueiro, canetas-tinteiro com as quais você pode escrever cartas no fundo do mar, relógios que sobrevivem a uma queda de avião (embora você morra), insípidos sanduíches de pão de forma com presunto, sabendo a matéria plástica e todas as outras coisas graças às quais, no Life e no Look, a vida norte-americana se apresenta em rosa e azul. 

A mim preocupa, entretanto, o futuro do artista, quanto a isso é preciso prestar atenção na espetacular mudança operada em relação aos antigos meios de comunicação. Neste século vimos o artista ingressar na coletividade, transformando-se num meio de produção; acompanhamos passo a passo a sua escravização. Mas eis que o artista — um artista — se rebelou, e aconteceu algo extremamente importante. Havia certa máquina construída especialmente para escravizá-lo ou, em último caso, massacrá-lo. Mas o mundo estava dividido em duas partes. Um livro atravessou as severas fronteiras do seu mundo, e em outro mundo, eis que ele foi usado como propaganda contra o mundo do qual provinha. Quanto ao seu conteúdo, até agora jaz ocluso em suas páginas: as duas partes em que se divide o mundo reivindicam e impõem, ao mesmo tempo, mas em oposição permanente, esta ideia (seria melhor dizer ideal): uma, e não outra, representa a realidade, isto é, o mundo, ou o presente para o futuro do mundo. Você pode viver aqui em oposição a isso; ou lá, contra aquilo; mas negar ambas as coisas equivale a estar fora do mundo — dos dois mundos. Isso é sem dúvida o que está acontecendo. 

Mas os próprios meios de domínio permitiram o nascimento de uma outra força que nós conhecemos como opinião pública. É esta a primeira manifestação de alguma coisa que só agora nasce e cujo nome há muito tempo conhecemos. Chama-se Humanidade. Opinião pública significa a existência de alguma coisa que deve ser controlada, seduzida, enganada, conquistada ou esmagada. Significa que alguma outra força, para sobreviver, precisa controlar, seduzir, enganar, conquistar ou esmagar. Isso tem sido feito com espantosa frequência e sem grandes consequências desde a Segunda Guerra Mundial. Mas já houve um velho, um grande profeta, um homem de pele escura e óculos redondos, chamado Gandhi, o qual subverteu completamente tais noções (Oriente versus Ocidente versus Opinião Pública). Ele nos lembrou aquilo que outro homem, este chamado Jesus (mas quando o mundo ainda era muito tosco, muito menos dramático), já nos havia ensinado. Os reis da Terra são os homens, todos os homens, cujo conjunto se chama Humanidade. A humanidade não precisa ser controlada, seduzida, enganada, conquistada ou esmagada, porque nela estão incluídos aqueles que desejam controlá-la, enganá-la, conquistá-la, etc. A humanidade fala em conjunto; pela primeira vez na história dos homens ela fala em conjunto; e sua voz pede a destruição dos Estados, o desarmamento (a destruição) dos Estados, a despolitização das fronteiras.

A Lua já não é um satélite da Terra. A Lua é a Lua e a Terra é a Terra. Na Terra estão os seres humanos, os bichos, os peixes, os pássaros, as flores, as casas, o mar, as árvores, os cemitérios, as crianças, o vento, os poemas, os quadros, os automóveis, os campos de futebol, os vermes, os Estados Unidos, a União Soviética, o Brasil, Tegucigalpa, Cuba, Paris, a Torre Eiffel, a memória coletiva de um passado comum, Marilyn Monroe, Nikita Kruschev, Fidel Castro, Ernest Hemingway, Juscelino Kubitschek, petróleo, pipocas, a cidade natal de cada qual, os campos de provas atômicas, os santos, os justos, os hipócritas, os psicopatas, os neuróticos, os flamboyants, as gomas de mascar, as estrelas vistas daqui, os alpinistas, os suíços, os queijos, as vacas, os bois, os escoteiros, as escolas, os canhões, os espadachins, Martin Heidegger, Ezra Pound, Picasso, Charles Chaplin, os óculos Ray-Ban, as gravatas, os ônibus, aviões, Coca-Cola, agências de publicidade, cerveja gelada, feijão com arroz, caviar, vodca, azeite de oliva, o rio Sena, a rua do Gato que Pesca, nossos parentes, nossos amigos, nossos inimigos, as cartas de baralho, os crimes passionais, os cavalos, as ferraduras, os ferreiros, os trens de ferro, os navios, as ondas do mar, o sol, as nuvens, a alegria, a tristeza, a morte, o holofote, a agonia, a neve, o deserto, a felicidade, o amor, os soldadinhos de chumbo e os que vão morrer, as diversas línguas vivas, as línguas mortas, as estações de rádio, os índios civilizados, os chineses, os holandeses, os barcos a vela, as bananeiras, o cachimbo, o cigarro, a aguardente, as bombas de gasolina, os hidrantes, os paralelepípedos, os apartamentos, as moedas, a riqueza, a pobreza, a justiça, a injustiça, o ódio, o chocolate, o café, o muçulmano, o judeu, o cristão, o comunista, o ateu, o caçador de borboletas, o ciclista, o maníaco, o touro, o pavão, o jacaré, a zebra, o leão, o gafanhoto, o bondinho do Pão de Açúcar, o Prêmio Nobel, o Prêmio Stalin, o Prêmio Pulitzer, a manhã, a tarde, a noite, a dor, o suicídio, o homicídio, a velhice, a adolescência, a puberdade, os tetos, as lâmpadas Edson, a água, a formiga, a pedra, o pó, o mato, a floresta, o céu, a chuva, os doces & salgados, as crianças abandonadas, os circos, os parques de diversão, as teorias, os números, as letras, as palavras, as frases, os períodos, os clarins, os tambores, os namorados, os livros, os cabelos, os olhos, os dedos, as úlceras, a saliva, o beijo, a psicologia, a filosofia, a filologia, a padaria, a farmácia, o câmbio negro, a segregação racial, a prostituição, os esportes, os perigos, a saúde, a doença, o Papa, a rainha da Inglaterra, o telefone, a harpa, o fagote, o trombone, o elefante, o Mal, o homossexualismo, as ditaduras, as revoluções, os anúncios classificados, a álgebra, a burocracia, o teatro, os loucos, os gênios, os gordos e magros, a música de Mozart, o mito da Torre de Babel, os porcos, o sorvete, a Suécia, o monte Fuji com o seu gorro, Iroshima, as revistas clandestinas, as atrizes que fazem o que for preciso para alcançar a glória, o mal-estar dos capelões quando pela primeira vez trocam a batina pela farda, o bigode de Salvador Dalí, os húngaros, os romenos, os tchecos, os eslovacos, os poloneses, os alemães, os italianos, os noruegueses, os paraguaios, os argentinos, os tibetanos, os árabes, os presidiários, a borboleta, a carnificina, a chacina, os eclipses lunares, o estilo de Sthendal, a tesoura, a linha, a agulha, o gavião, a águia, o relógio, a liberdade humana, o livre arbítrio, a teoria da relatividade, o existencialismo, o cubismo, o expressionismo, o impressionismo, o concretismo, o neoconcretismo, o abstracionismo, o abstracionismo lírico, o surrealismo, o futurismo, o neorrealismo, o realismo, o naturalismo, o enfemismo, o zigoma, o ziguezague, o estilingue, o papagaio, o polvo, a cobra, a baleia, a areia, o capim, o muro, o estampido, o silêncio, a sombra, o guarda-chuva, o frio, a vírgula, o espaço, o tempo, o tímpano, o templo, a tropa, o trôpego, o trêfego, a epifania, o piano, o asno, o dia, o mês, a semana, o minuto, o ano, o século, o segundo, o jornal, a gasolina, o carvão, o poente, o nascente, a clemência, a bondade, a generosidade, a sabedoria, a gazua, a gazela, a arca de Noé, a lontra, o bebê, o sexo, a rosa, o espinho, o umbigo, o trigo, o troglodita, as histórias da Carochinha, a carroça, os sulcos dos pneus na estrada enlameada, o sapo, o grilo, o rinoceronte, o tigre, o hipopótamo, a ampulheta, a descoberta da América, o Renascimento, o cimento, o copo, a garrafa, a jarra, o jarro, a ânfora, a âncora, o âmbar, o cânhamo.

(Continua)

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.