Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 26/04/1981.
Entro no cinema para sentir a temperatura da plateia. Estão exibindo Eu te amo, de Arnaldo Jabor. O título não é casual. Uma geração corrompida pelos filmes de Hollywood acostumou-se a dizer que filme brasileiro não podia prestar porque, entre outras coisas, ninguém consegue dizer “Eu te amo” sem se tornar incuravelmente ridículo. O certo é I love you ⏤ com olho azul, cabelo louro e o letreiro The End crescendo desde o infinito até dominar toda a tela. Pela mesma razão, não se pode escrever um romance policial no Brasil porque ninguém acredita no detetive “José da Silva”. O certo é “Jack Barnes”, ou besteira semelhante.
Jabor sabe. Antes mesmo de rodar a primeira cena, o cineasta brasileiro tem que vencer a barreira do preconceito linguístico. Que tal, então, apostar tudo no primeiro lance, gritando “eu te amo”, em português claro, em todos os cartazes e nas ondas do rádio?
É por isso que estou aqui sentindo a temperatura da plateia. Ora, a temperatura da plateia é excelente. A barreira do som (“eu te amo” é um som) foi vencida. Rodeando o filme de Jabor, na Cinelândia imaginária que tem o tamanho do território brasileiro, neste justo momento estão passando os filmes premiados e quase premiados com o Oscar deste ano. Não é propriamente uma concorrência desleal, mas esmagadora, o que talvez seja pior. O produtor Walter Clark ⏤ ele próprio um chamariz ⏤ enfrenta todos esses touros indomáveis, todas essas gentes como a gente, todos esses tess e polanskis e redfords, com a prata da casa que, o público já se convenceu, vale ouro: Arnaldo Jabor, Sônia Braga, Vera Fischer, Tarcísio Meira, Chico Buarque de Holanda e Antonio Carlos Jobim. São as estrelas cujos nomes atraem. Walter, Jabor, Chico e Jobim não aparecem, apenas realizam, mas seus nomes conferem credibilidade ao espetáculo. É preciso dar previamente ao espectador todas as garantias de que verá um filme de fino acabamento, seja qual for o país no qual tenha sido produzido. Por mera coincidência, foi feito aqui. Vamos entrando, é brasileiro mas é bom!
Dizem que qualquer coisa atualmente, se desejarmos bem compreendê-la, deve ser submetida a variadas leituras. Acho isso uma grande bobagem, pois começa atomizando o nosso olhar numa miríade de especializações ⏤ mas não impede que, de vez em quando, também me dê ao luxo de ser moderninho. Só que sou um moderninho radical se tenho que fazer diversas leituras deste filme, começarei fazendo a leitura da sua plateia... Irei comprar um drops, no saguão, e perguntarei à vendedora de balas o que é que ela sente, vendendo chocolates e jujubas, enquanto na sala escura estão passando um filme brasileiro. Na calçada do Cinema Leblon, perguntarei ao guardador de automóveis se, aproveitando os bons fluidos emanados da plateia (quando as portas se abrem, marcando o término de cada sessão), ele terá coragem de dizer hoje à noite, no seu barraco da Rocinha, a crioula que há tempos faz o seu macarrão com arroz: “Etelvina, eu te amo!” Terá ele essa coragem na declaração dos seus sentimentos, ou ainda vai achar que isso são palavras que só mocinho de fita americana diz à mocinha no final do longa-metragem falado em inglês?
Estou evidentemente brincando. Mas é uma brincadeira com um travo amargo de verdade. Fui ver Eu te amo e disto dou agora uma notícia engraçadinha, porque será preciso ver o filme outra vez, a ação é muito rápida, quase alucinante em suas alternâncias de drama e comédia, e me interessa ver mais demoradamente aquelas cenas que não fazem parte do miolo da história. Por exemplo: o show de histrionismo de Tarcísio Meira, admirável e surpreendente, pois sempre se espera dele uma impostação de gala dramático; a intrusão de um estilo novo de representação, na pessoa personagem Regina Casé, cuja situação Jabor pode começar a desenvolver desde logo, pois nela se vislumbra um filme inteiro, completamente diferente de tudo o que se mostrou até hoje nas telas brasileiras.
Devemos considerar, ainda, a atuação magnífica de Paulo César Pereio, o protagonista, cujo nome e figura só a partir de agora começarão a atrair um vasto e cativo público. Era um ator de elevado prestígio nos meios artísticos e intelectuais, doravante, será um astro popular.
Assim me sentia eu, enquanto tomava a temperatura da plateia no Leblon-1. Agora vou ver o filme outra vez, em busca das diferentes leituras que, dizem, cada obra de arte deve conter... Enquanto isso, recomendo a quem gosta de cinema que vá ver, pois é um espetáculo de alta categoria, mostrando pessoas bonitas e sofridas fazendo coisas belas e divertidas, e envolvidas num ambiente onde a tecnologia internacional se põe humildemente ao serviço da velha imaginação brasileira, indisciplinada e fulgurante.