Tenho ido a muitas festas e tenho fumado bastante. Sinto uma opressão constante nos brônquios (uma quentura), e uma espécie de agonia deliquescente viaja em minhas veias. Estou fatigado. Acordei hoje cedo e acendi um cigarro. Fumei. Isso me produziu um princípio de taquicardia.
Fiz o café da manhã, saboreei uma xícara e queimei lentamente dois cigarros. Li os jornais — e fumava enquanto lia, agora estou na máquina de escrever. Vou escrever. Sinto falta de alguma coisa: é o cigarro. Bebo outro cafezinho, acendo um cigarro e datilografo.
Quando me produzi visualmente aos 16 anos, com aquela necessidade que têm os adolescentes de serem os seus próprios distintivos, requisitei a um oculista alguns graus de miopia, porém ele me deu somente astigmatismo. Não importava: eu queria os óculos. Comprei um par de óculos de aros grossos — óculos de intelectual. E me equipei com um maço de cigarros, para ir fumando “intelectualmente” pelo resto da vida.
30 anos depois, sou um escravo do cigarro. Mas o que é um cigarro? As ressonâncias que evolam dessa palavra, como rodelas de fumaça, parecem desencorajadoras: cigarro; sarro; pigarro; catarro; barro. Mas no cilindro de papel, recheado de fumo e carimbado com sua marca — Hollywood — ainda não está o vício. Ando na rua com um cigarro na boca — um cigarro apagado. Logo, um transeunte prestativo me oferece o isqueiro e sou forçado, por delicadeza, a acender o cilindro apagado. Quando entro no elevador, fumando, o ascensorista me adverte que ali é proibido fumar: deixo o cigarro cair no chão e o esmago com o pé. Mas se entro no elevador tendo na boca um cigarro apagado, o ascensorista não me diz nada.
Porque o cigarro é a fumaça entrando e saindo da boca. O cigarro é o gesto de levá-lo à boca e a fumaça nele tragada e depois soprada. A fumaça é o problema. Sem fumaça, o cigarro é objeto inanimado; com fumaça, é extensão do corpo: nós a introduzimos nos pulmões, nos brônquios, e quando a expelimos, a fumaça revela a nossa respiração, como um punhado de açúcar aplicado no vazio nos revela o rosto do Homem Invisível. Através da fumaça expelida, a respiração fala: através dela, você está nervoso (sopro rápido) ou decidido (um sopro só, soltando grande quantidade de fumaça), indeciso (a fumaça é soltada entre os lábios, que a comprimem, e se evola desmanchada).
Nada disso significa nada. Os pulmões trabalham em ritmo de fole, gratuitamente, desatinadamente. A nicotina se acumula nos pulmões. Placas de nicotina enlameadas, negras, nauseabundas, revestem nossos pulmões. Perdemos o fôlego, e as demais atividades do corpo esmorecem. Depois do orgasmo, fuma-se lentamente; a fumaça se ergue vagarosa, ao compasso do nosso aniquilamento físico. Nesse momento de beatitude, o cigarro representa a ansiedade domada; mas a necessidade de fumar, nesse momento, indica que a ausência de ansiedade, o bem-estar não me parece satisfatório. É justamente isso: você tem saudade da ansiedade; quer retomar o ritmo ansioso de sua vida, que o orgasmo pacificou.
Quando escrevo, não uso óculos; mas preciso fumar antes de escrever e vou fumando enquanto escrevo, perco a conta dos cigarros fumados enquanto datilógrafo.. Neste sentido, a fumaça se assemelha a um combustível. Às vezes penso que sou antes um tabagista que um escritor; escrevo porque fumo; é portanto aqui, trabalhando, que devo empreender a grande batalha do descondicionamento.
Quatro meses atrás, inventei um método. Acendia um cigarro de hora em hora e anotava numa papeleta: 9h – Veneno – 1. Acendia outro cigarro e escrevia: 10h – Veneno – 2. No fim do primeiro dia, eu havia consumido, e portanto anotado 22 venenos. Três dias depois, cheguei à marca de dez venenos consumidos em 17 horas de vida útil. Cinco dias após o início dessa experiência, na minha busca decrescente de um recorde, consegui anotar apenas três venenos no curso do dia. Foi aí que a ansiedade se manifestou, desbordante. Tornou-se frenesi. Acordei de madrugada e fui em jejum. Levantei-me às sete da manhã, com um segundo cigarro na boca, e fui tomar o café. Depois do café, fumei mais dois. E anotei na papeleta: 7h30 – Volúpia – 4. O veneno já não me amedrontava; mas a volúpia nele contida me atraía, fumei gulosamente, dali em diante, passei a fumar 10 vezes mais que antes de diminuir o número de cigarros.
Estou assim, agora: fumando freneticamente. Sinto, porém, que espiritualmente estou preparado para eliminar o cigarro de meus hábitos. Não quero fazê-lo brutalmente: há de ser vagarosa a ruptura entre minha fraqueza e a perniciosa delícia sugada no cilindro de papel.
Preciso respirar o ar puro, preciso engordar alguns quilos, preciso fazer ginástica, pois devo alcançar as condições físicas ótimas para o desempenho de minhas tarefas de escritor. Não posso mais perder tempo, estou gasto e cansado, não pretendo ser mais um que fracassou, mais um artista frustrado numa comunidade em que cumprir sua (pré) destinação, coisa tão rara, chega a constituir escândalo. Não se trata, vejam bem, de ganhar prêmios maravilhosos ou de entrar em academias. Trata-se apenas de esgotar minhas possibilidades, na circunstância dada – de escritor condenado ao fracasso social por força dos obstáculos que se apresentam em seu caminho, mas não ao fracasso individual, ao desastre existencial. Posso ser o escritor que quero ser, mesmo que não ganhe nada com isso. E a minha chance de felicidade, a única que tenho. Se continuar fumando freneticamente, daqui a pouco o meu corpo se desmilingue e não terei mais forças para continuar trabalhando.
Para lutar contra o tempo, tenho que lutar contra aquilo que me rouba grande parte do tempo de que disponho à minha frente. Abandonar o cigarro, tirá-lo de minha vida, é um sacrifício que fortalecerá meu caráter – uma das provas concretas de que estou em condições de ser intensamente eu mesmo, na solitária plenitude a que me venho afeiçoando desde que inventei alguém que, no final, deveria receber meu nome, dando-lhe um peso específico e singular.