Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 11/02/1981.

Esta é a composição que será lida por garotos de 11 a 17 anos, abrindo uma coleção de crônicas, com outros autores, da Editora Ática. Enquanto me dedico à construção de um novo folhetim, a ser iniciado aqui em princípios de março, deixo ao leitor esta fatia de meu próprio lado infantojuvenil.

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Nasceu na ilha de Vitória, Capital do Espírito Santo. Era um menino de família pobre e aos quatro anos de idade ficou órfão de pai. Nessa mesma época, aprendeu a ler sozinho, comparando as letras com as figurinhas do gibi. A primeira palavra que conseguiu ler era estrangeira e misteriosa: boomerang. Quando entrou na escola, aos seis anos, a professora ficou espantada porque o olho daquele menino era alfabetizado, mas a mão dele era completamente analfabeta. Além disso, era canhoto e foi um custo escrever com a mão direita. Naquele tempo, criança canhota não era muito querida, não.

Ele nunca andou de velocípede, nem de bicicleta, nem montou a cavalo, nem passeou de patins, nem nada. Seu brinquedo, no Natal, era um bilboquê feito com lata de suco de tomate amarrada por barbante a um pedaço de pau. Mas via por todos os lados o mar, e foi no mar que descobriu o mais belo, mais saudável e mais salgadinho brinquedo do mundo. Aprendeu a nadar em todos os estilos, mergulhava quase meio minuto, e muitas vezes se atirou de convés de navio ancorado no cais do porto. Mas quase morreu afogado foi no rio Doce, no município de Linhares, onde passou uma férias de verão.

Aos nove anos de idade, no grupo escolar, já era escritor, escrevendo poesias num jornalzinho infantil chamado O Anchietano, em homenagem ao Padre José de Anchieta. Não era um jornalzinho feito à mão, e sim na linotipo, que nem jornal de gente grande. Aos 11 anos, descobriu a Biblioteca Municipal e leu quase todos os livros que havia lá, inclusive uns proibidos para menores. Aos 14 anos, sempre sozinho, aprendeu a escrever à máquina. Assim se tornou um datilógrafo de alta velocidade, mas até hoje ignora quantos dedos usa para bater as teclas.

Aos 16 anos, virou jornalista profissional, publicando diariamente uma crônica no diário A Tribuna. Ao completar 18 anos, fugiu de casa sem dinheiro, pegou um trem com a passagem que um colega rico lhe deu e desembarcou no Rio de Janeiro sem conhecer ninguém. Passou muita fome, dormiu em banco de praça, mas graças a Deus encontrou pessoas caridosas que o protegeram e lhe deram emprego na Noite Ilustrada, uma revista que não existe mais. Daí passou para a Manchete, e como repórter viajou por todo o Brasil. Quando voltou à sua terra natal, aos 25 anos, já era famoso e todo mundo queria escutar as suas aventuras. Ele ficou lá em Vitória, contando suas mentirinhas, mas um dia lhe bateu uma grande saudade do Rio, para onde voltou. Hoje, é carioca de coração, embora continue fiel à sua origem capixaba.

Por ter começado muito cedo a sua vida aventureira, passou a ser chamado pelo diminutivo: Carlinhos. Ele hoje já está careca e já podia ser avô, mas o pessoal continua a chamá-lo de Carlinhos Oliveira. Ele é aquele tipo de homem que será sempre noivo, nunca conseguindo chegar a marido. Também nasceu para tio e não para pai: quase todos os filhos de seus amigos são seus sobrinhos e confiam nele, porque ele não mente nem dá conselhos. Ele apenas diz: “Você pode fazer tudo o que quiser, menos aquilo que sua consciência considere indecente”.

Quando lhe perguntam se é feliz e se está satisfeito com o que conseguiu na vida, ele responde citando o poeta Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena se a alma não é pequena”. Até hoje, porém, fica triste quando se lembra de que nunca, mas nunca mesmo, andou de velocípede.

jose-carlos-oliveira
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.