Fonte: O luar e a rainha, Companhia das Letras, 2005, pp. 105-106. Publicada, originalmente, no site da BBC, em 7/02/2001.
A memória é um músculo. Músculo a ser exercitado todos os dias. Com a mesma disciplina de quem dá três voltas no parque correndo. Ou levanta peso, faz esteira, bicicleta de pernas para o ar.
Um bom exercício de memória é sentir saudade. Não importa de quê. Ao sentir saudade, você tenta reconstituir o objeto ou situação causadora do – digamos assim – ataque de nostalgia. Então mergulha no tempo e vai reconstituindo o que se passou. Como se passou. O que havia em torno. Qual a cor, o cheiro, o gosto de isso e aquilo outro.
Aí está a memória sendo exercitada.
Ora, pois, pois. Dizem agora os cientistas – e não há dia que passe sem que os cientistas digam alguma coisa, dizem os cientistas que a geração informatizada está perdendo a memória. Que a dependência do computador passou a provocar graves lacunas de memória. E em gente moça. O que para nós, mais velhos – estão me ouvindo? –, não deixa de ser reconfortante. Jovens entre vinte e 35 anos mostram-se com sérios problemas.
Cientistas japoneses, americanos e ingleses, em suas publicações especializadas, apontam casos assustadores. Um jovem senhor de 28 anos que, em Tóquio, teve de desistir do emprego quando passou a esquecer para onde estava indo, com quem iria se avistar e até mesmo o que estava vendendo. Para um vendedor, isso não é lá muito recomendável.
Um simpósio realizado na Grã-Bretanha, examinando os efeitos da tecnologia, disse que o uso da net e do computador está começando a fazer efeito. E que a memória, tal como a conhecemos ou como dela nos lembramos –, estará ameaçada, caso passe a ser substituída pelo computador.
A idade, pois, afeta o hardware do cérebro, mas há equívocos que ocorrem com o software que nada têm a ver com a passagem do tempo.
Peço desculpas por ter dito, ou escrito, hardware e software. É que esqueci como é que se diz em português. Esqueci devido à idade, ou devido ao computador aqui em cima da mesa?