Fonte: O luar e a rainha, Companhia das Letras, 2005, pp. 257-258. Publicada, originalmente, no site da BBC, em 10/12/2003.

Na hora em que o frio chegou para valer e o Natal se aproxima, na hora em que todo mundo está na rua coberto de roupas e agasalhos, nesta hora, precisamente, é que paramos – no sentido figurado para contemplar umbigos – dos outros, evidentemente.

Há algum tempo estou por fora de lances dessa natureza. Quis minha natureza, e a que nos rege a todos, que eu passasse a maior parte do tempo antes dedicado ao exame visceral de assuntos dessa ordem considerando e pesquisando (e me espantando sempre com) outros detalhes de meus semelhantes que não seus umbigos.

Na época em que essas coisas foram importantes para mim menino, rapaz e homem maduro de praia, atentei para diversas características do, sempre, sexo oposto, deixando de lado, ou pelo menos para depois, o umbigo. Sabia, como o poeta Carlos Drummond de Andrade, sobre "o corpo que tem dois seios e um embigo", e isso era formidável, principalmente porque era com e e não com u (embigo, e não umbigo), muito mais ilógico e por isso mesmo mais desejável.

Feito o esclarecimento de que tanto o umbigo quanto o embigo me eram absolutamente secundários, no que dizia respeito ao corpo da moça que eu quisera que me fosse muito, mas muito minha semelhante mesmo, várias vezes por semana, feito esse esclarecimento, passo adiante o que fiquei sabendo pelas folhas outro dia mesmo: segundo estudos acadêmicos recentes, o umbigo é o máximo em matéria de pontos de atração sexual.

Deixou na rabada os seios que Drummond contou, e aquilo que já foi chamado de derrière quando os franceses é que nos deitavam, lato sensu, as regras dos entretenimentos sexuais.

Frise-se ainda que o umbigo, em sua barriguinha de macho ou fêmea, sempre segundo os tais estudos acadêmicos, não é simples fetiche, como já foram a paixão excessiva por pés, cotovelo ou papadinha. Absolutamente. O umbigo, segundo os tais acadêmicos, constitui parte integral do apelo erótico humano, e não mais um acessório estético, nestes dias em que o reforço via intervenção cirúrgica, siliconizada ou não, está ao alcance de quase todos. 

Tudo isso é difícil de dizer e escrever coberto de lã, mesmo sintética. Queria ver é darem essa notícia em pleno verão, doce balanço a caminho do mar. Digo: doce umbigo a caminho do mar. 

ivan-lessa
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.