Fonte: Caderno B, Jornal do Brasil, de 3/03/1972.

Principalmente às quintas-feiras, quando os feirantes armam suas barracas na rua João Lira, o Leblon é invadido por grupos de crianças maltrapilhas. Esses grupos não apenas já fazem parte do cotidiano como se integram na paisagem, desde que haja por perto um turista com olho fotográfico. São mendigos mirins, mas é tão natural que o sejam quanto estar o Cristo Redentor lá em cima do Corcovado.

Porém, no verão atual, que as chuvas do outono já desmancham em dias grisalhos, tem-se a impressão de que os lares miseráveis foram destruídos, passando a morar na rua todas as crianças que neles viviam. Todas, sem exceção. Numerosas como tanajuras, impertinentes como gafanhotos, alegres porque a liberdade, mesmo compulsória, é sempre inebriante.

Vivo a especular sobre devaneios. Contudo, diante de fatos objetivos, quem prevalece em mim é o repórter. Tão logo a visão desses bandos de meninos começou a constituir uma amostragem estatística de um fenômeno inquietante, interessei-me por eles sem que entrasse nesse interesse qualquer emoção, preconceito ou convicção. E foi assim que descobri um esboço de organização: — a presença de um ou de vários cérebros pensantes por trás da vagabundagem aparentemente assimétrica. Em linguagem popular, pensei assim: “Este ano a infância abandonada está dando uns 100 pontos no IBOPE, tirando de letra a TV Globo, a TV Tupi, as cotações da Bolsa e até a Loteria Esportiva. Haverá uma razão para isso?”

A razão parece ser que a necessidade criou os próprios meios de sua satisfação. Trata-se de uma invasão, e aqui estou usando a palavra exata. É preciso ocupar um território previamente determinado, e para alcançar tal objetivo o procedimento não varia.

Digamos que o objetivo seja a calçada diante da varanda do restaurante Antonio’s. Aparece um garoto e se encosta numa árvore. Aparece outro garoto e se encosta num automóvel estacionado. Aparecem duas meninas de nove, dez anos e pedem dinheiro e comida aos que estão almoçando na varanda.

Surge um automóvel e seu motorista inicia a manobra de estacionamento. O garoto que está na árvore corre a ajudar o motorista, tornando-se, assim, automática e magicamente, um guardador de automóveis. O motorista estaciona, entra no restaurante, bebe, come e quando volta ao carro para ir embora encontra o nosso amiguinho da árvore prestes a dirigir a manobra de partida. O outrozinho, aquele que chegou em segundo lugar, continua encostado no automóvel que escolheu ao acaso. Este recebe e devolve o sorriso do guardador improvisado, que exibe triunfante uma nota ou algumas moedas.

Está conquistado o território. Se me permitem um detalhe desagradável, acrescento que alguns adultos circulam na área de ocupação, pedindo esmola sozinhos ou acompanhados de criancinhas famélicas, mas na verdade supervisionando a execução do projeto.

Dias ou semanas depois, estabelecida a lucratividade rotineira da área, a árvore é ocupada por uma menina-moça cuja função será ficar ali o dia inteiro, sem fazer nada. O motivo de sua vigilante inatividade aparece na forma de um segundo bando infantil, que tenta ocupar também o território agora transformado em propriedade do primeiro grupo. As primeiras escaramuças se travam dentro de um código de ética, cuja única finalidade é evitar que os otários percebam o que está se passando. Mas logo degeneram em discussões e tentativas de agressão. E quando os ânimos atingem o ponto ótimo da guerra, surge o dissuasor, que é um menino grande e disposto a qualquer violência para defender sua Dulcinéia, que ali está encostada a uma árvore, sem criar problemas para ninguém...

Neste ponto da situação entra em cena o livre atirador, o mendigo solitário, um adulto. Ele representa a intrusão, no processo, de uma tecnologia canhestra, mas impressionante: vem de bicicleta. Encosta a bicicleta na árvore, tirando o lugar que pertencia à menina, e repete os ritos do primeiro menino que entrou nesta história, tornando-se então o guardador oficial de automóveis naquela área, escorado que está no fato de ser o mais forte.

Mas as crianças não se intimidam. Ao contrário, começam a provocá-lo. Chegam agora em maior número, alterando completamente a estabilidade do local no que diz respeito à coleta de dinheiro caridoso. Acabam enlouquecendo o homem da bicicleta, que ameaça espancar todas elas, atraindo assim a atenção dos circunstantes e prejudicando desta forma a excelência do local. E eu aprendo na varanda do Antonio’s que tecnologia e infância mutuamente se excluem. E guardo para outro dia a conclusão destas observações.

jose-carlos-oliveira