Fonte: O luar e a rainha, Companhia das Letras, 2005, pp. 31-32. Publicada, originalmente, no site da BBC, em 15/03/2000.

Mais ou cedo ou mais tarde, a ciência vem e confirma tudo aquilo que a gente já sabia que era verdade. Mais ou cedo ou mais tarde, também, a ciência vem e desmente tudo aquilo que a gente já sabia que era verdade. Pior para a ciência, que não entende nada de verdade, principalmente das verdades eternas.

Ora, uma das poucas verdades eternas deste mundo é que os taxistas são pessoas diferentes de mim e de você. A deles é uma sensibilidade diferente, uma visão especial do mundo, uma inteligência em estado bruto que só não descambou – descambar é o verbo correto, que só não descambou para as inconsistências da ciência, digamos, devido ao seu estado avançado na escala do desenvolvimento humano.

Os cientistas, esta semana mesmo, além de mais uma vez roubarem espaço nas primeiras páginas dos jornais com suas clonagens suínas, como se fossem astros e estrelas do mundo pop que tivessem acabado de destruir mais uma suíte de hotel, os cientistas, dizia eu, em revelação muito mais séria e importante, revelada apenas nas páginas pares internas de certos jornais, os cientistas, repito em minha incansável admiração, os cientistas descobriram que os taxistas de Londres são mais inteligentes que a média dos mortais. Como disse no início, bidu! Código antiquado para "essa eu já sabia, pô!".

Os taxistas de Londres, bem entendido, aqueles que dirigem esses maravilhosos carrões pretos quase em formato de caixa de sapato, são mais inteligentes que os outros taxistas, de Londres ou de qualquer outra cidade, deste e de qualquer outro país, porque são obrigados a passar anos e anos decorando rua por rua da capital e as várias maneiras de ir de um lugar a outro. O exame, conhecido como The knowledge (O conhecimento), é tido, merecidamente, como um dos mais rigorosos do mundo, e é justo que o seja, de modo que o cidadão, ou o turista, se sente não só são e salvo no interior do táxi, como também numa posição em que, se se der ao trabalho, ouvirá só palavras sábias escapando, como pérolas, dos lábios do taxista londrino formado e reconhecido em cartório. O exame, concluíram os cientistas, desenvolve a parte direita do cérebro, creio que se chama o hipotálamo, e é isso que torna o homem que nos leva à casa depois do teatro mais interessante.

Só tem um problema: o táxi londrino é um dos mais caros do mundo. Quer dizer, você está pagando pelo hipotálamo do motorista, além do preço da gasolina, que, como sabemos, anda lá nas alturas.

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15/3/2000

 

ivan-lessa
As crônicas aqui reproduzidas podem veicular representações negativas e estereótipos da época em que foram escritas. Acreditamos, no entanto, na importância de publicá-las: por retratarem o comportamento e os costumes de outro tempo, contribuem para o relevante debate em torno de inclusão social e diversidade.