Fonte: Caderno B, coluna "O homem e a fábula", Jornal do Brasil, de 23/11/1962.

Falava eu da minha solidão. É assim: “Eles querem que sejas moderno, de vanguarda, objetivo ou dedicado à causa revolucionária. Muito bem. Mas eles começam assassinando o teu oficio. Eles torcem as frases, mutilam as palavras ou aderem aos slogans onde a palavra fome e a palavra ódio têm tanto valor quanto a palavra dentifrício. O comportamento intelectual do propagandista é essencialmente servil. É preciso divulgar aquilo que todos já sabem. Portanto, o propagandista da esquerda é um cadáver que todas as manhãs se ergue com dificuldade do sepulcro no qual se deixou enterrar. Tu, no entanto, não és nada disso. Tu vieste ao mundo para reabilitar o ponto-e-vírgula e és o melhor amigo dos pronomes. Todos atualmente começam a escrever assim: — Entrou em casa. Fechou a porta, etc. Tu escreves: Ele entrou em casa. Por isso, os pronomes te admiram. Tu não tens medo de ser contraditório (eles, que não são contraditórios, são incoerentes) e não tens medo de ser infantil e não tens medo de errar e depois mordes o dedo até sair sangue, e tudo isso é registrado fielmente, fielmente relatado.

“Vejam a rosa. A rosa é bela com suas pétalas, e perfumada; a rosa não serve para nada. Muito bem. No entanto, vives encantado com as rosas. O fato de que não servem para nada e que tenham vindo ao mundo apenasmente para serem rosas, eis o que te encanta. E quando dizes isso és logo acusado de alienado.... Tu não sabes que a rosa é capitalista? A rosa não trabalha, não produz... A rosa é a rosa, como dizia (mais ou menos) Gertrude Stein e Vinicius de Moraes plagiou num momento de genial inocência. Oh! Eles não entendem, quando dizes que és um romancista frustrado, que reivindicas para o fracasso um valor existencial idêntico ao do êxito. Assim procuras redimir cada consciência que se sente culpada. Assim, tu ajudas o teu semelhante. Quando tu dizes: hoje estou desesperado, aquele que estiver desesperado e que ouvir o que tu disseste não sentirá mais a singularidade do desespero, pois que há uma parcela de tormento em toda experiência humana. Esta é a forma pela qual manifestas solidariedade com o outro. Por isso, hoje, estou muito contente contigo”. 

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