Imagens da serra
Aconteceu em Petrópolis. Mas vem acontecendo no Brasil inteiro, onde quer que haja uma árvore secular embelezando uma praça pública. A Autoridade passa por ali, vê e fecha a cara. Árvore antiga, dessas com muita folha, robustez e elegância, compondo paisagem? Não é possível. Então a Autoridade promove a construção de qualquer coisa — estátua, bica, bloco de apartamentos — no sítio daquele escândalo vegetal. Pega de um machado, pá! Nem sempre se constrói a coisa, mas a árvore se converteu em lenha.
⏤ Ah, estas de Petrópolis, não, tenha paciência! Não vê que são da velha praça da Confluência, gala e tradição da cidade?
— Não importa!
— Cedros magníficos, plantados pelo Conde d’Eu!
— E daí?
— E que é que a senhora vai plantar no lugar deles?
— Um ginásio de basquete, vôlei, futebol de salão, muita coisa! — ruge a Autoridade.
Que adianta indicar-lhe outros terrenos onde se pode jogar vôlei, tênis de mesa, etc., e que não tenham, como aquele, uma fisionomia especial, um sentido, uma configuração histórica? De que vale dizer-lhe: Isto aqui é belo e nunca mais se poderá fazer um conjunto igual, porque o preço do metro quadrado de chão não o permite; coloque ali adiante as suas quadras esportivas, ninguém é contra elas, mas por que o esporte há de brigar com a natureza e a emoção histórica?
A Autoridade resolveu, pronto. Para cortar conversa, cortam-se as árvores, antes que o Conselho Consultivo da DPHAN opine sobre a inscrição do local em Livro de Tombo, como pede Guilherme Auler. E o pior é que são duas autoridades a fazê-lo, a municipal e a federal. O vandalismo é financiado pelo Ministério da Educação (e Cultura) que por uma de suas agências protege os sítios históricos e os conjuntos paisagísticos, e por outra agência os destrói.
Petrópolis foi, em tempos mais felizes, a Cidade das Hortênsias. Quem chegasse lá tinha a impressão de que essa flor era um elemento da vida urbana; combinando-se a outros aspectos característicos — o Piabanha, as pontes, a presença invisível do Imperador dava um toque especial à cidade. Não era só um monte de casas na serra; era um ambiente, uma estampa colorida emergindo da névoa. Hoje Petrópolis é a Cidade sem Hortênsias, pois elas foram exterminadas como ratos. As casas encompridaram-se em edifícios, mas disso já ninguém se queixa mais. Havia os restos antigos, e entre eles esses cedros que não eram políticos, não atrapalhavam qualquer meta, e falavam do passado. O passado não é um capital de Petrópolis? Não é a atmosfera adequada para envolver o Museu Imperial, atração turística brasileira?
Pensei em telefonar para os príncipes, avisando-os do mal feito cometido contra os troncos plantados pelo venerando avô, mas depois achei melhor não incomodar suas altezas. Lembrei-me de dois poetas da planície: Manuel Bandeira, antigo morador na Mosella, que recolheu em sua obra tantas vivências petropolitanas (“Um vagalume abateu sobre as hortênsias e ali ficou luzindo misteriosamente”) e Paulo Gomide, da Estrada da Saudade, há tempos sagrado poeta de Petrópolis. Que eles escrevam elegias sobre os cedros assassinados, protesto inútil mas duradouro. Enquanto isso, aqui em baixo, na encosta do Corcovado, o presidente da república manda cancelar o tombamento do soberbo Parque Henrique Lage, para que muitas outras árvores sejam igualmente derrubadas e o Rio fique mais nu.